Autoria, autoficção, cruzamento entre narrativas literária e cinematográfica em Animais Noturnos e A Garota do Livro

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Por Renata Frade

Assisti a Animais Noturnos, filme de roteiro incrível, denso, trama de tensão dramática crescente, com elementos e trilha que remetem a Hitchcock. Um dos elementos narrativos mais evidenciados que me provocaram um encantamento e o desejo de manifestar esta apreciação foi a criação literária. Antes de chegar ao ponto que me levou a escrever este texto, é necessário resumir a trama para quem não assistiu.

Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gylenhaal) se casaram muito jovens. Ele buscava reconhecimento como escritor de obras auto-referenciais e ela, rica, cursava universidade e visava atuar no mercado de artes plásticas. A distância entre as origens sociais e objetivos os afastou. Ela o traiu com um empresário bem sucedido, com quem se casa novamente. A nova relação atinge o ápice da crise na mesma época em que a marchand recebe, sem esperar, um manuscrito pelo correio. O autor era seu ex-marido, o título do livro é homônimo ao do filme.

Roteiros paralelos são estabelecidos. A vida dos personagens dos livros invade a vida caótica e solitária de Susan. Edward, após vinte anos sem contato, envia à ex-mulher uma obra que salta aos olhos, quase agride, gruda, tensiona, amplia a solidão da protagonista do filme. O exercício da leitura da personagem é fascinante, fazer literário é trabalhar o imaginário em nós, não contempla a descrição literal, objetiva como a do jornalismo sobre fatos externos e subjetivos. O exercício do filme é impactar em quadros de imagens, com todos os elementos adicionais, como música e efeitos.

Em Animais Noturnos somos leitores e espectadores, simultaneamente. De obras dramáticas — livro e filme — que se desenrolam para um mesmo fim de seus personagens principais, apesar de se encaixarem em situações e contextos totalmente diferentes. Interessante a troca da auto-referência de Edward para um universo ficcional novo, de violência aguda, sem poupar o leitor (e Susan) de verdades, detalhes na trama policial construída.

Nos ambientes acadêmicos e muitas vezes na publicação de livros de alta literatura a autoficção nem sempre é bem acolhida, vivemos um momento de saturação de publicação de títulos com primeiras pessoas narrativas. A fórmula tem dado certo e se mantido, entretanto, em diversos gêneros do entretenimento. Revelar as entranhas faz vender e cria empatia entre autores e jovens leitores, sobretudo. Sobre este tema, recomendo que leia uma reportagem do El País Brasil, ´´Cansados do eu? A autoficção mostra sinais de fadiga´´

(http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/06/cultura/1483708694_145058.html)

A finalização de um manuscrito representa uma redenção dupla a Edward, personagem que pouco aparece em Animais Noturnos, mas preenche os minutos através das leituras e lembranças da convivência por Susan. Prova seu valor artístico e como o homem que manteve seus ideais íntegros, enquanto a empresária das artes cada vez mais se torna uma figura decadente. As atuações são incríveis, vale a pena conferir.

Ainda sobre obras literárias em obras cinematográficas, conferi recentemente outro filme que vai nesta linha: como a história da escrita de um livro se desenrola em paralelo e, ao mesmo tempo, de maneira tão intrínseca à vida dos personagens do roteiro. A Garota do Livro (em cartaz no Netflix) tem como protagonista Alice Harvey (vivida por Emily VanCamp, a Emily de Revenge), teve sua carreira como escritora sufocada em decorrência de um trauma à Lolita sofrido na adolescência com um escritor aclamado, publicado por seu pai, um respeitado agente. Além da relação íntima vivida entre ambos, ela o reencontra no ambiente de trabalho. Agora é assistente editorial, tenta provar seu valor como editora, na sombra do progenitor, e sua rotina se assemelha a um misto de secretária e relações públicas.

O então respeitado escritor é uma fraude, seu best-seller foi escrito por Alice, que desde a publicação, quase vinte anos depois, provocou um bloqueio criativo e um caráter autodestrutivo em sua condição feminina. O surgimento da Alice escritora, frases do livro que lhe tomaram, permeiam seu presente. O filme é construídos em idas e vindas de flashbacks, a vida em editora de Alice, a fama a qualquer custo e o verniz intelectual do ladrão consagrado. Um dos momentos mais interessantes é quando o personagem não consegue provar o valor como criador literário em público usando seu verniz acadêmico, intelectual. O universo onde transita nunca foi o pop da jovem, com quase 30 anos no presente da trama.

Alice é só, assim como Susan de Animais Noturnos. Em prol de uma carreira que almeja reconhecimento, mata gradualmente as Alices que poderia ser. Seu livro vive, recebeu prêmios enquanto ela assiste o outro ocupar os espaços que seriam dela. A autoficção de uma então adolescente veste a identidade falsa do best-seller que a abusou. A Garota do Livro vale para quem trabalha no mercado editorial, ou tem interesse em publicar livros, pois revela situações cotidianas da produção à divulgação que são reais, eu mesma experimentei algumas trabalhando na área há 15 anos. Quanto obra cinematográfica não tem a relevância, densidade e originalidade do primeiro filme mencionado neste artigo.

São raros os filmes que tratam de questões do mercado editorial, sobretudo os que criam a intercessão narrativa literária e narrativa cinematográfica, remontam a processos de criação, dramas envolvidos. Recomendo que assista a Animais Noturnos para deleite e A Garota do Livro para conhecer meandros desconhecidos sobre processo de criação, autoria (o que é verdadeiro e falso), trabalho em editoras.

Trailers legendados:

https://www.youtube.com/watch?v=MA4wBYcgEUQ

https://www.youtube.com/watch?v=HF41OmdB3GE

Apreciação do romance Dois Irmãos – Milton Hatoum

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Minha primeira leitura do ano é um acerto antigo de contas. Motivada pela incrível ficha técnica da minissérie homônima que estreará na TV, mergulhei em Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Uma leitura de vez só, sem direito a ir à superfície para respirar. Trata-se de um grande épico forte candidato a clássico. Romance na medida das narrativas que ficam, como as tramas universais centradas nas questões familiares escritas com maestria pelos russos. Acho que tudo de mais relevante sobre este livro já foi dito, devo estar chovendo no molhado, sendo óbvia, rasa, mas as leituras que nos assombram precisam sair do peito, da alma.

Imagens de uma exuberância imensa, intenções, gestos, cenários, pessoas. Tudo é crível e belo, mesmo cruel por vezes. Uma história libanesa-amazônica em que tudo é gente, tudo é personagem, tudo é tão vivo, inclusive o tempo. As palavras dos imigrantes árabes e dos índios, os fatos históricos entremeados com os emaranhados do núcleo familiar de pais amantes, cuja relação aos poucos definha com a chegada e crescimento dos gêmeos. Este tempo-espaço tão específico é universal e atemporal. Texto fluido, direto, encantador no equilíbrio entre os elementos superficiais e os de sustentação central da narrativa.

 

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O autor criou gêmeos diametralmente tão opostos e fascinantes. Difícil como leitora ter uma empatia maior por um, ou por outro. São como nós, mendigos de afeto dos pais, dos amores, pedintes de companhia tantas vezes quando a solidão nos carrega ao abismo. Finalmente conheci o Amazonas, seu povo, cultura, sociedade, o fascínio que nunca entendi pela região. As frutas, cheiros de comidas e gente, os ribeirinhos e peixes, a devoção da religião. Elementos que normalmente não me fariam sentir atraída em uma leitura de romance, pela distância e ignorância de minha parte, mas que fazem todo o sentido e ampliam a beleza e densidade de cenas e tramas.

Ah, este narrador, filho de Domingas. Vontade de pegar nas mãos dele e dividir as dores, angústias, as pequenas conquistas do passado e do presente narrativo. Um jovem sábio sem a amargura de quem quase nada tinha na vida, um mestre de cerimônias de porvires narrativos sem igual. Quanta delicadeza e, reforço, equilíbrio, cuidado em cada frase, parágrafo, que estrutura incrível de um romance orquestradas por Hatoum.

Necessito compartilhar pelo menos com quem não leu, com quem não sabe a grandeza deste autor, que se trata de uma obra de arte imperdível. Quem vos fala é uma leitora voraz, que sabe que não se pode perder a chance de dividir um tesouro a quem leva a literatura como uma luz e razão de vida.

 

Mais referências:

Dois Irmãos venceu o prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance. Confira trecho de entrevista do autor, Milton Hatoum, e da roteirista Maria Camargo, que adaptou a obra para a série de TV, a Edney Silvestre, no Globonews Literatura:

http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/globonews-literatura/v/literatura-milton-hatoum-e-maria-camargo-falam-sobre-a-adaptacao-do-livro-dois-irmaos/5561973/

 

Sobre Em Mãos, livro de poesias de Rachel Ventura Rabello

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´´Sei que para o impasse da poesia e do homem não há soluções definitivas: pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer. Uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espíritos dos homens´´ (GULLAR, Ferreira; Sobre arte. Sobre poesia: uma luz no chão. José Olympio, 2006).

 

Em mãos, livro de estreia da poeta Rachel Ventura Rabello, é redenção. Gosto de terra molhada, de água que escorre lavando a sujeira interna, trazendo a alegria de criança com cabelo e roupa molhados pela chuva. É a materialização de processos vencidos e talvez permanentes de uma ebulição interna quanto artista, quanto mulher, quanto filha de gênio, quanto pessoa. A luz da citação de Gullar é o fio de esperança em que o escritor se agarra para resistir; o balão de oxigênio são palavras, que permitem à criadora e ao leitor transmutar e viver uma experiência singela e, por esta razão, talvez poderosa de realizar a potência de ser pleno em um instante, ou ao longo da existência.

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A reunião de seus poemas, de forte intensidade dramática, conclamam a amar aqui e agora; carne, alma, coração. Empoderar o seu feminino, o seu ser no equilíbrio da dor, prazer, alegria, perdas e ganhos. É notável e encantador deparar-se com lirismo bucólico, com a mulher-menina-mulher que se desnuda sem pudor para revelar ao leitor, em versos, a grandeza de sua subjetividade.

Os poemas versam sobre o exercício do amor, por seu pai, Raphael Rabello, um dos maiores musicistas do século xx que precocemente deixou Rachel e a todos nós, e pelo ser amado. Elaborar luto e uma vida visceral, de quem parece não temer e se esconder frente aos riscos que é ser plena no exercício do coração, é algo que salta pelas páginas. A poeta pega o leitor pela mão em uma ciranda, em um passeio daqueles que a gente se senta na sombra de uma árvore em dia de sol para uma conversa sem pretensões e, ao mesmo tempo, pretensa a nos levar onde deveríamos retornar mais vezes, deveríamos levar mais a sério. Os sentimentos e gestos contidos em um instante que se torna eterno ao leitor, como um álbum de fotografias que você sente vontade de retornar para reviver, para lembrar de quem já foi, de quem se é e, quem sabe, empenhar-se para ser menos ordinário no cotidiano e mais valoroso no tempo da memória e dos afetos.

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Os poemas de Rachel Ventura Rabello são uma carta entregue ao leitor para ser degustada aos poucos, conhecer suas conquistas, derrotas, experiências. Uma obra que desperta os sentidos, provoca e remonta a gozos, a esvaziar-se para encher-se, exercício para bons poetas capazes de transpor a dimensão em palavras do que representa a condição humana.

Li esta obra no dia de finados. Isso não tem nada a ver com apreciação crítica, estética de um livro. Mas é curioso, pois o dia foi ensolarado como a leitura. Em mãos é uma carta de amor aos leitores que se foram, são e virão, ao pai que nela é e será, e a mim que precisava tanto de suas palavras para me sentir estimulada a ser mais e melhor por elas.

Sobre Em Mãos:

http://www.oitoemeio.com.br/loja/oito-e-meio/em-maos/

Por Renata Frade

 

Lançamento de meu terceiro livro: O Livro Delas

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SAVE THE DATE!
Lançamento de O Livro Delas no RJ!

Dia 22/10, das 15h às 17h, na Livraria Cultura – Cine Vitoria. Venha para sessão de autógrafos deste lançamento da Editora Rocco, que faz parte de nosso projeto, com as autoras cariocas Bia Carvalho Carolina Estrella Fernanda Belém Graciela Mayrink Tammy Luciano e a organizadora e apresentadora, Renata Frade

LitGirlsBr é um projeto Punch! Comunicação & Tecnologia

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Sobre Meu olho não puxado puxou o lado errado – de Yassu Noguchi

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Sempre li muito desde pequena. Por prazer e porque minha atividade profissional exige. Raras são as vezes em que me sinto compelida a compartilhar uma impressão, uma apreciação literária. Tem tanta gente que faz isso, muitas vezes falando as mesmas coisas, de formas diferentes. Contudo, existem livros que são um chamado para a vida. Por isto, quero que você conheça Meu olho não puxado puxou o lado errado, de Yassu Noguchi.

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Antes de tentar traduzir e, com isto, reduzir a você leitor a quantidade de significados, sentidos e emoções presentes no silêncio e na contenção precisa de seus poemas, chamo a atenção para o projeto gráfico. Um livro que cabe na mão e, ao mesmo tempo, transborda em humanidade e delicadeza. Desde a escolha do papel, dos elementos gráficos, uma obra feita à mão! São páginas de sentimentos como cuidado, devoção à produção editorial, transmitidas pela enCaderno edições. Uma empresa que se define de forma singela e única: ´´que rola na mesa de jantar da sala de casa. Pequenas tiragens artesanais e muito amor à poesia´´.

Em épocas de anestesia de afetos, de nivelamentos morais e comportamentais, de emoções reprimidas pela violência dentro e fora de nós, de pessoas, de lares, de ambientes, o livro de Yassu é um chamado para o aqui e agora, a atenção zen de viver mil possibilidades no presente, no amor, nas relações, na vida em movimento que nos passa. A autora conclama para que sejamos silêncios e ruídos. Que nada seja em vão, mesmo o que é vão e perene. Ser nossa potência, nossa subjetividade com alegria, com a afetividade dos generosos, presente nas grandes pessoas, ou grandes autores, ou em ambos os casos. Pensar, sentir, emocionar, sorrir e, se tiver vontade, chorar. Nunca reprimir. É um gozo a leitura de Meu olho não puxado puxou o lado errado. Que pode levar 5 minutos em 24 páginas, apenas. Para mim, terá a duração de uma vida, cada página a me desafiar a ser melhor, a viver com mais responsabilidade por mim e pelo que acredito que seja a vida real.

Claro que ao ler você pode se lembrar de Paulo Leminski, por conta do formato haikai, mas uma das coisas que mais admiro em Yassu Noguchi é ser poeta sendo mulher, sendo do nosso aqui e agora, autêntica, um novo no século 21.

Leia, querido desavisado deste blog. Eu precisava dividir isso com todo mundo e com você.

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Um dos autógrafos mais bonitos que recebi, mais singelos.

 

 

 

 

Trecho conto RG – AntologiaPatuscada

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“Tri-bi-li-na. O cliente me deu o nome. A gente nasce mesmo quando está pronta para rir da cara de quem não é livre. Não acredito em transgressão, isso é para enrustidos. Vivi do prazer sendo cada dia uma escolha, agradando mãos e bocas”.
Trecho de RG, meu conto publicado na Antologia Patuscada, pela Editora Patuá. Na mesma obra há uma poesia de minha autoria, Paralelos.
Para adquirir:

http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=389

 

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Meus Livros Lançados em 2016 !!!!

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Livros

 

Sempre escrevi desde pequena, já tinha um blog (https://pessoafisica.wordpress.com), passei os últimos 10 anos frequentando saraus de leitura, cursos, workshops sendo aluna de tanta gente incrível como Moacyr Scliar, Flávio Carneiro, Adriana Lunardi, de escrita criativa que me sinto realizada, em um intervalo de seis meses, por ter lançado três livros como escritora de contos, poesia e também como criadora de um projeto editorial, o qual assino a organização e co-autoria por fazer parte de um projeto da minha empresa, LitGirlsBr.
Ser criativo e inventivo é arriscado, uma vez que vc passou anos e anos se privando para fazer as coisas acontecerem, muitos tentam surfar sua onda. Mas eu acredito que para cada um de nós existe algo que é seu, dado por Deus (a Ele, ou Ela, toda a Honra e toda
a Glória), que deixará marcas. Não importa de onde você veio, quem você é. Quem luta para realizar um sonho e se capacita, consegue. O que é seu destino muitos podem tentar, podem querer tomar, passar por cima, ridicularizar, mas é para sempre seu e sempre será.
O importante é ser feliz com suas escolhas, eu sou com as minhas.

1 – Antologia Patuscada – antologia de contos e poesias da Editora Patuá, lançada em marco de 2016. Sou autora do conto RG e da poesia Paralelos.
Para adquirir, além de livrarias: http://www.editorapatua.com.br/index.php…

2 – Contágios: antologia de contos organizada pelo crítico literário e jornalista José Castello, publicada em julho pela Editora Oito e Meio. Sou autora do conto Irmandade.
À venda na Livraria Blooks, Estação das Letras e no site da editora: http://www.oitoemeio.com.br/loja/oito-e-meio/contagios/

3 – O Livro Delas: sou organizadora e co-autora (Apresentação) desta antologia de contos de talentos nacionais da literatura publicada pela Editora Rocco. É uma das plataformas (projeto está descrito no livro) do
primeiro projeto multiplataforma de literatura nacional para jovens no país, LitGirlsBr, lançado pela Punch! Comunicação & Tecnologia em 2015, em desenvolvimento.

Além disto, fui curadora de conteúdos, além dos exclusivos e inéditos na versão ebook, que são artigos e entrevista voltados ao estudo desta formação de leitura e impacto desta literatura no mercado editorial brasileiro.

Desde a aprovação com distinção de minha dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira pela UERJ, e por atuar no mercado de livros há 15 anos, sempre fui pesquisadora.
Á venda em livrarias físicas e virtuais em todo o país. Conheça no site da Rocco:

Livro

Espero que curtam muito! De coração, Renata.